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Ao Beco, meu muito obrigado.

Ao Beco, meu muito obrigado.

Eu entrei na faculdade em 2013. Estávamos passando por um momento de profundas transformações. As minorias tomavam voz, o povo tomava as ruas. A gente aprendia todo dia algo novo que estava enraizado e fazíamos errado (apelidos, expressões, trejeitos).

Eu estudei numa faculdade particular. E por mais faculdade que seja, de extensão do ensino médio é como realmente a devemos chamar. Uma verdadeira bolha. Quando eu entrei, ainda em 2013, nos banners que anunciavam as festas ainda havia uma nota de rodapé: mulheres só entram de salto.
Outro fato importante de se destacar é que morei em Brasília, no plano piloto. Saí de uma bolha para outra.

Quando a gente vive numa bolha e não tem noção dos nossos privilégios, temos a percepção de tudo que falamos e fazemos é correto. Entender o mundo a nossa volta e ter mais empatia com o outro é algo muito difícil. Ninguém quer sair da zona de conforto.

A bolha da nossa faculdade era assim. A gente só participava das nossas festas, afinal, tínhamos o melhor open bar, as melhores atrações e as meninas mais bonitas.

Foi em 2014, no entanto, que tudo mudou. A gente fez uma chapa pro Centro Acadêmico e eu pude conhecer pessoas que mantenho amizade até hoje, e que provavelmente manterei por muito tempo mais. Foi também em 2014 que, em uma quarta-feira me chamaram para ir ao open bar do Beco, na Rua Augusta.
Mas logo na Augusta? Rua dos gays, não tem nada pra fazer lá não.

Beco 203

Ainda bem que nós temos a oportunidade de quebrar a cara, e, principalmente, evoluir. Foi a primeira vez que eu fui na Augusta. Descemos no metrô na Paulista. Passamos em frente o Center 3 e descemos a famosa Rua Augusta. Foi a primeira vez que eu vi algo que mudou minha percepção do que é respeito e tolerância. Eu vi tudo, e de tudo. E foi lindo.

Você imagina, pessoas de tribos diferentes parando os vendedores de isopor pra tomar um shot. Todo mundo vestido de maneira diferente. Parecia uma loucura saída direto de uma tela do Basquiat.

Trocando em miúdos, entramos no Beco. O Bequinho, Beco 203, o que você quiser. Lá dentro tinha de tudo e tocou de tudo. Me lembro bem. Do cheiro de chopp artesanal, dos drinks do open bar. Do teto com suas luzes que mudavam de cor. Do abafado do local. Da escada pra ir para os banheiros, do pole dance. O mais legal é que o que eu vi lá eu passei a ter como modelo do que eu queria como divertimento. Todo mundo misturado, respeitando os outros e curtindo a sua vibe.
Não me levem a mal festas da minha universidade, mas vocês nunca chegarão aos pés do Bequinho. Lá não tinha vez pra homem desrespeitoso, lá não tinha ninguém contando vantagem por que estava de rádio na orelha. Lá não tinha dress code. Lá não tinha gente te olhando torto. Nem te julgando. Lá tinha tudo que vocês não tem. Alma.

O Beco fechou, mas por 3 anos eu fui cliente fiel. Ia sempre que podia. Levava todo mundo que conseguia pra lá. O Beco se tornou minha referência. Deixei de ir nas festinhas da faculdade. Todas iguais, com as mesmas pessoas, as vezes mudava o tema, mas a essência era a mesma.

Efervescência de gente. Efervescência de respeito.
Obrigado, Beco, por ter me levado à Augusta e ter me mostrado o mundo fora da minha bolha.

Beco, fui um dos salvos por você. Meu mais sincero adeus.

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